segunda-feira, 14 de junho de 2010

OS SAPOS Manuel Bandeira

Os sapos



Enfunando os papos,
saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra
Berra o sapo-boi:
--"meu pai foi à guerra!"
--"Não foi!" --"Foi!" --"Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: -- "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consonantes de apoio

Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia
Mas há artes poéticas..."

Urra o sapo boi:
--"Meu pai foi rei" -- "Foi!"
--"Não foi!" --"Foi!" --"Não foi!".

Brada em um asomo
O sapo-tanoeiro:
--"A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo."

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
--"Sei!" --"Não sabe!" --"Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo cururu
Da beira do rio


1918
De Carnaval (1919)


Manuel Bandeira

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